A Casa Demolida
Hoje deixo a casa antiga,
sapatos à porta
e sigo.
Construção de pau-à-pique.
Erguida ao pique do possível.
Levantada com a força da proteção.
A necessidade segunda da vida:
abrigação.
O terreno é de empréstimo.
A terra é de encontro.
Negociado.
Por uns, surrupiado.
Pelo justo, pelo mínimo,
alcançado.
Ocupado, apropriado.
Aquela casa acalenta,
de todo o frio do qual não se pode morrer.
Do frio que extermina.
Mas não do frio que somente-incomoda.
Uma casa de ontem.
Uma casa pequena.
Uma casa.
Assim, demolida de tempo.
Corroída das horas.
Efêmera como homens.
Passageira.
São assim como os pensamentos, como as razões e os sentimentos.
Vão-se construindo ao material disponível (tanto escasso dia-de-hoje),
duram o tempo de uma vida, meia-vida, instante-de-vida e desaparecem.
Operária solitária,
(falta-algo)
em busca do
terreno, da
matéria, e da
razão.

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